Hidrolipo ganha espaço e desconfiança médica
Uma variante da Lipoaspiração convencional, a Hidrolipoaspiração tornou-se a nova sensação nas clínicas de estética.
Em função do suposto baixo custo (entre R$ 1.500 e R$2.500) e da promessa de um procedimento cirúrgico rápido e sem sofrimento, a hidrolipo ganhou não só a preferência nas clínicas em relação à lipo tradicional, como também chamou a atenção dos cirurgiões plásticos pelo número elevado de complicações.
"A hidrolipoaspiração é uma distorção da lipoaspiração verdadeira. Uma tentativa de torná-la menos perigosa. Trata-se de um procedimento invasivo como a lipo tradicional e, portanto, deve ser feito em centro cirúrgico e por especialista credenciado pela SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica)", afirma o cirurgião plástico Renato Perali, de Jacareí, que também atende em São José dos Campos.
Ele explica que durante qualquer intervenção cirúrgica, o médico deve acompanhar os sinais vitais do paciente e, para isso, necessita da infra-estrutura hospitalar.
Caso recente
A preocupação dos cirurgiões plásticos com o uso indiscriminado da hidrolipo se baseia também em caso recente, como o da advogada Silvana Turine Augusto, de São Paulo.
Ela morreu após se submeter a uma hidrolipoaspiração realizada no consultório do médico Bruno Molinari.
Após a morte, a Vigilância Sanitária apurou o caso e constatou que a clínica não era o local mais apropriado para a realização do procedimento.
Procurado pela reportagem da revista Check-Up, Molinari não foi localizado para comentar o assunto.
Check-Up reproduz, ao lado, parte de uma entrevista concedida pelo médico ao jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte (MG), dias após a morte da advogada.
A própria SBCP se manifestou sobre o caso: trata-se de uma cirurgia agressiva, que deve ser feita por médicos capacitados em clínicas equipadas ou hospitais, define a entidade.
Outro problema apontado pela SBCP é que a cirurgia estética, nos últimos anos, vem sendo erroneamente realizada por ginecologistas, dermatologistas e endocrinologistas, que apesar de toda a experiência médica, não estão aptos a realizarem esses tipos de intervenções.
O Conselho Federal de Medicina estabeleceu, em 2003, normas de segurança para a realização da lipoaspiração, desde a indicação correta da técnica, os locais onde devem ser feitos, os cuidados pré-operatórios, até quem deve realizar a mesma, no caso, o cirurgião plástico, com imprescindível experiência em cirurgia geral na sua formação, para saber diagnosticar e tratar complicações possíveis (
http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2003/1711_2003.htm).
A técnica
Desenvolvida há cerca de dois anos, a hidrolipo baseia-se na aplicação de uma mistura de soro fisiológico e anestésico nas células de gordura, que incham e acabam se rompendo.
"Por meio de um aparelho de ultra-som, são emitidas vibrações que provocam a ruptura das células gordurosas. Essa gordura, em estado mais liquefeito, pode então ser aspirada por meio de seringas ou minúsculas cânulas", explica a cirurgiã plástica de São Paulo, Zuleika Alvo.
"A lipoaspiração com anestesia local existe há anos. Essa história de que a solução com soro fisiológico e anestésico local rompe as células de gordura não é verdade, e isso também é feito na lipo tradicional. O ultra-som que realmente dissolve a gordura não é esse usado sobre a pele, mas um outro que é emitido por um aparelho tipo uma cânula de lipoaspiração", explica Perali.
"Além dos cuidados citados acima, deve-se atentar às grandes doses de anestésicos locais e de adrenalina infiltradas, pois elas são grandes causas de complicações neurológicas e cardiopulmonares", conclui o cirurgião.
Outro lado
Médico diz ao jornal que técnica era reconhecida
Em entrevista logo após a morte da advogada, Bruno Molinari (médico do esporte) diz que procedimento era legal
Em nota à reportagem do jornal O Estado de Minas, o médico Bruno Molinari disse que o procedimento de hidrolipoaspiração seria "reconhecido" pela Sociedade Brasileira de Medicina Estética como "procedimento estético", e não cirúrgico.
Logo após a morte da advogada, a sociedade informou que este tipo de abordagem não é reconhecido pela entidade. No início do mês, após essa publicação no Estado de Minas, reiterou a informação - cabe lembrar que a Medicina Estética não é uma especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina.
Segundo Wilmar Accursio, secretário-geral da sociedade, médicos usam o nome hidrolipoaspiração para convencer os pacientes de que se trata de uma técnica "mais leve".
Mas, na verdade, trata-se de uma lipoaspiração que, pelas recomendações oficiais, deveria ser feita somente por cirurgiões.
O médico responde agora a processo e teve sua clínica em São Paulo interditada por técnicos da Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde.
Regulamentação
CFM estabelece normas rígidas para lipo desde 2003
Além de especialista em plástica, médico não pode tirar mais de 7% do peso corporal
Para tentar coibir abusos e erros médicos, o CFM (Conselho Federal de Medicina) editou em novembro de 2003 uma resolução que estipula normas rígidas para o procedimento de lipoaspiração.
A resolução 1.711 estabelece que nenhum médico pode retirar mais de 7% do peso corporal do paciente quando for utilizada a técnica infiltrativa (que produz menos sangramentos) e 5% quando a escolha recair sobre a técnica não infiltrativa.
A resolução do CFM determina também que o procedimento não pode ser feito em mais de 40% da área do corpo, independentemente da técnica utilizada pelo cirurgião.
As regras do Conselho definem ainda como deve ser a instalação médica onde será realizado o procedimento. Um anestesista deve estar na sala de cirurgia durante todo o tempo da lipoaspiração.
Essa obrigação é dispensada apenas quando o procedimento requer o uso de anestesia local. Nesses casos, a presença do anestesista durante a cirurgia não é necessária.
Estimativas do Conselho Federal indicam que até a publicação da norma, em novembro de 2003, cerca de 20% das lipoaspirações feitas no país eram realizadas por profissionais não habilitados. Até 2003, a média de lipoaspirações feitas no Brasil beirava os 400 mil procedimentos por ano.
Dica
Paciente deve sempre avaliar capacidade profissional do médico
O primeiro passo para quem pretende se submeter a uma cirurgia plástica é buscar todo tipo de informação sobre o profissional escolhido. Veja abaixo dicas elaboradas pelo Instituto de Defesa do Consumidor para quem pretende passar por um procedimento estético.
Escolha um cirurgião capacitado.
Peça indicações com amigos e conhecidos que já realizaram o mesmo tipo de cirurgia e com médicos de confiança. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (
www.cirurgiaplastica.org.br) também pode ser uma base para consulta, pois conta com uma lista que reúne 3.300 especialistas em cirurgia plástica. Procure saber se o médico indicado é membro da SBCP e se possui o título de especialista.
Avalie o hospital.
É importante informar-se sobre a idoneidade do hospital ou da clínica que fará a operação. O estabelecimento deve ter alvará de funcionamento em dia e ser bem equipado para responder a emergência.
Esclareça suas dúvidas
Na primeira consulta, o médico deverá responder todas as suas indagações numa linguagem compreensível. Pergunte onde vão ficar as cicatrizes; quais os riscos; como será o pós-operatório, se ficarão hematomas e por quanto tempo; se é possível alcançar os seus objetivos e desejos; quais as possíveis intercorrências e complicações.
Faça uma auto-análise
Analise a viabilidade dos seus desejos (nem tudo é possível com uma simples operação) e avalie sua saúde física e psicológica. Observe ainda se você terá condições de cumprir o repouso e os cuidados pós-operatórios recomendados.
Revista Check Up - São José dos Campos-SP